Durante a década de 1970, aqui, na América Latina, iniciou-se, entre psicólogas e psicólogos sociais de diversos países, um processo de crítica à Psicologia Social com orientação positivista e enfoque adaptacionista gestada nos Estados Unidos na década de 1950, um modelo que se difundiu amplamente, não só, mas também por aqui. Os encontros da SIP – Sociedade Interamericana de Psicologia, realizados nessa mesma década, foram importantes momentos de intercâmbio entre profissionais da psicologia, impulsionando avanços na configuração de propostas de Psicologia Social condizentes com a realidade social desses países. Silvia Lane no Brasil, Maritza Montero na Venezuela e Martin Baró em El Salvador, são figuras emblemáticas desse movimento. Vários desses países, estando sob o jugo de ditaduras militares implantadas com o apoio e atendendo aos interesses do imperialismo estadunidense, viviam uma conjuntura social caracterizada por profundas mazelas e permeada pela opressão e violência que não descartavam a eliminação física de oponentes. Considerando essa realidade e de modo contraposto à neutralidade da ciência, essas propostas adotaram modos de produzir conhecimento e objetivo opostos àqueles da psicologia social que estava sendo questionada. Em outros termos, com uma orientação dialética e métodos diversificados, ao invés de ter por objetivo a adaptação dos indivíduos à sociedade, buscaram entender como produzir um saber que contribuísse para esses mesmos indivíduos se capacitarem a assumir a condição de agentes das transformações sociais necessárias ao restabelecimento de uma dinâmica social fundada em princípios civilizatórios. Destacam-se também as aproximações epistemológicas tanto de perspectiva decolonial – que visa renunciar as estruturas de saber-poder impostas pela colonialidade propondo uma ecologia de saberes que valorize as vivências do Sul Global – quanto de perspectiva contracolonial – que, fundamentada em Antonio Bispo dos Santos, propõe uma resistência ativa e a preservação de cosmologias que nunca se deixaram colonizar. Juntas, essas abordagens deslocam o foco da neutralidade científica para o compromisso ético-político, permitindo que a psicologia social brasileira aprenda com culturas e identidades latinas, indígenas, quilombolas, ribeirinhas e migrantes, a partir de suas historicidades, ancestralidades, tecnologias e ecologias sócio-políticas.
No momento histórico atual, após um período de vigência de democracias mitigadas, o imperialismo que, entre nós, persistiu por meios menos explícitos e contundentes, mais uma vez, recorre à violência aqui, bem como, efetivamente ou mediante ameaças, em uma escala que se configura como uma crise civilizatória. Conjuntura que, mais uma vez impõe desafios para a Psicologia Social comprometida com a preservação dessa mesma dinâmica social que, assim o indica a realidade, será fundada em outros pactos. O desafio decorrente da crise civilizatória impulsionada pela agressividade imperialista, assim como pelo crescimento da simpatia ao fascismo e das múltiplas fobias dirigidas a variados segmentos, deve ser entendido no fluxo histórico que o gerou, ao mesmo tempo em que se retome a memória dos movimentos da psicologia social de orientação crítica, de modo a auferir subsídios para prover conhecimentos que possam contribuir para atuações em direção aos necessários novos pactos civilizatórios. Assim, esse eixo de trabalho tem o objetivo de acolher Rodas de Conversa que dialoguem sobre a História e bases epistemológicas da Psicologia Social Crítica diante da exigência e urgências da vida cotidiana e das lutas sociais.
Este eixo propõe reunir discussões que problematizam as transformações contemporâneas, especialmente diante dos processos de plataformização da vida e da intensificação das mediações tecnológicas nas práticas sociais. Interessa-nos refletir sobre os impactos dessas dinâmicas na formação em Psicologia, nas diretrizes curriculares, nas práticas de ensino, pesquisa e extensão, nas políticas públicas bem como nas disputas políticas que atravessam a profissão. Considerando o avanço capitalista, que produz ainda mais desigualdades sociais e, associada ao desmonte das políticas públicas, intensifica a miserabilidade da população e impulsiona antigas e novas formas de sofrimento ético-político, considera-se que esse processo possui nexos com as políticas públicas de Assistência Social, Educação, Saúde e Trabalho, entre outras, as quais registram a precarização da atuação dos profissionais dessas áreas, o que dificulta o acesso da população aos serviços de qualidade socialmente referenciada.
Nesse sentido, dialoga com contribuições de intelectuais como bell hooks, ao pensar a educação como prática de liberdade e espaço de resistência, e Ricardo Antunes, ao analisar as metamorfoses do mundo do trabalho e a expansão do trabalho plataformizado. O eixo também convida à reflexão sobre o papel das tecnologias sociais e de comunicação na produção de subjetividades, nos modos de ensinar e aprender e nas formas de organização coletiva. Interessa compreender como essas tecnologias tanto podem reforçar desigualdades quanto abrir possibilidades de invenção de práticas críticas e emancipatórias. Serão bem-vindas trocas que abordem: diretrizes curriculares e formação em Psicologia; políticas educacionais e seus atravessamentos; experiências pedagógicas críticas; ensino remoto e híbrido; impactos da plataformização no trabalho docente e discente; práticas que articulem educação, tecnologia e resistência; e interfaces da psicologia com a inteligência artificial. Abordagens em Psicologia Social que tragam reflexões teóricas e metodológicas sobre a constituição da práxis crítica, orientadas para a produção de uma sociedade democrática, mais justa e igualitária. Espera-se acolher rodas de conversa, relatos de pesquisa e experiências que apontem para a superação de concepções baseadas em preconceitos, estigmas e perpetuação da exclusão social e do sofrimento ético-político. Saberes que rompam com visões naturalizantes dos fenômenos psicológicos, que colaboram para a manutenção das relações de dominação e opressão, negando a responsabilidade do Estado e da sociedade em fenômenos de ordem psicossocial. Os trabalhos submetidos neste eixo poderão ser para qualquer das áreas e suas interfaces, em forma de resultados de pesquisas, relatos de experiência, propostas de atuação, estratégias de enfrentamento ao desmonte de políticas públicas.
Este eixo propõe uma análise crítica na psicologia social sobre as dinâmicas de produção, disputa e ocupação do espaço no capitalismo, considerando suas relações com justiça social e meio ambiente, especialmente diante do colapso climático. Destaca a importância de reconhecer as diferentes percepções e histórias sobre o fenômeno climático, valorizando vozes plurais, indígenas, contracoloniais e decoloniais, como Ailton Krenak, Malcolm Ferdinand e Nego Bispo, que defendem a resistência e a criação de futuros possíveis através do storytelling. O foco inclui temas como privatização, gentrificação, deslocamentos forçados e migração, refletindo seus impactos em povos originários, comunidades tradicionais e populações urbanas, questionando suas condições de modernidade e as relações entre humanos e não-humanos sob uma perspectiva cosmopolítica, inspirada por autores como Isabelle Stengers e Vinciane Despret. Além do aspecto epistemológico, o eixo aborda questões concretas no Brasil, como especulação imobiliária, violência territorial e violações de direitos, propondo estratégias coletivas, populares e autonomistas para defender territórios e direitos frente às ameaças do capital, mudanças climáticas e crises civilizatórias. O intuito é refletir sobre O intuito é refletir sobre desastres socioambientais, conflitos territoriais e resistência às ações do capital, por meio da compreensão crítica das relações entre território, poder, justiça social e sustentabilidade, enfatizando ações de resistência e envolvimento sociocultural. Contamos com rodas de conversa, trabalhos e relatos de experiência que tragam a discussão sobre produção e disputa do território sob o capital; resistência de povos originários e comunidades tradicionais; pactos coletivistas, populares e autonomistas; desastres socioambientais e crise climática; violências estruturais e institucionais; crise civilizatória, perda de biodiversidade e modos de vida tradicionais.
Este eixo visa debater estudos no campo das relações etnicorraciais em especial do contexto da América Latina; com bases teóricas e/ou metodológicas da Psicologia Social e outras áreas do conhecimento. Esperamos proporcionar rodas de conversa, com trabalhos e relatos de experiência político-organizacionais de negros e negras no combate a todas as formas de racismo, seja ele comportamental, institucional ou estrutural em interface com a luta anticolonial. Circunscrever a conjuntura social de necropolítica, o genocídio dos jovens periféricos, dentre outras formas de segregação e dominação, dentro de perspectivas abolicionistas de resistência. O propósito será discutir e ampliar as reflexões que acercam as dinâmicas identitárias com o contexto de desigualdades sociais e a injustiça social, mantidas pela branquitude, herança do processo de opressão e escravização que ocorreu na América Latina.
O eixo também se fundamenta nas contribuições teóricas de autoras e autores como Cida Bento, Neusa Santos Souza, Lélia Gonzalez, Angela Davis e Frantz Fanon, cujas produções oferecem subsídios analíticos fundamentais para a compreensão do racismo enquanto estrutura histórica, social e também como operador psíquico. A partir dessas perspectivas, torna-se possível problematizar os processos de racialização e seus efeitos na constituição subjetiva, especialmente no que se refere à produção da invisibilidade da identidade negra e às dinâmicas de alienação e sofrimento psíquico decorrentes do racismo. Nesse sentido, propõe-se uma abordagem que compreenda o racismo em sua dimensão multideterminada, atravessando esferas institucionais, culturais, religiosas e interpessoais, operando como tecnologia de dominação que incide tanto sobre as condições materiais de existência quanto sobre os processos de subjetivação. Tal enfoque permite situar o racismo como produtor de sofrimento ético-político, conforme discutido no campo da Psicologia Social crítica, e como elemento estruturante das desigualdades raciais.
Por fim, buscamos aprofundar o debate acerca da invisibilização da identidade negra como um dos mecanismos centrais de reprodução do racismo, contribuindo para a construção de análises críticas e de estratégias de enfrentamento ancoradas em perspectivas anticoloniais.
O esgotamento do projeto civilizatório hegemônico implica em inúmeros desafios para o mundo do trabalho, sendo particularmente complexos na América Latina e nos países nos quais as economias dependentes e as condições históricas e objetivas do trabalho são estruturalmente precárias e frágeis em termos de direitos e proteção sociais. Os processos de trabalho foram significativamente modificados nas últimas décadas pela mundialização do capital, reestruturação produtiva e Reforma do Estado. Sob o regime da acumulação flexível e do pós-fordismo, o trabalho progressivamente se intensifica e precariza. O sistema de poder nas organizações pós-fordistas, sob o predomínio da esfera financeira da reprodução do capital, caracteriza-se pela manipulação e malversação do reconhecimento da subjetividade. Ademais, trabalhos uberizados e plataformizados disseminam-se, incrementando precariedades, vulnerabilidades e instabilidades nas economias dependentes. Fragilidades psicossociais se espraiam em diferentes modalidades e contextos de trabalho, reconfigurando e agudizando processos de saúde-doença. Uma nova morfologia do trabalho, reificadora, degradante e neotecnicista, implica em violações de direitos humanos, sociais e do trabalho. Em face de tais processos históricos, processuais e conjunturais, são mobilizadas formas de resistência e lutas sociais. As experiências de resistências em distintos âmbitos e contextos de trabalho necessitam ser identificadas e fortalecidas, com destaque àquelas protagonizadas no âmbito dos movimentos sociais e coletivos, assim como nas instituições voltadas à promoção de políticas sociais e de saúde comprometidas com a radical defesa dos direitos das trabalhadoras e trabalhadores.
Privilégios e opressões sociais são desempenhados na interseccionalidade de raça, gênero, classe, sexualidade, deficiência e território, em desdobramentos nefastos sobre modos de ser, viver e produzir. Em exemplo trazido de Cida Bento (2022), inspirada em Du Bois (1995), entendemos que a supremacia branca, o preconceito racial e o racismo institucional moldaram a sociedade estadunidense pela identificação da classe trabalhadora branca com a elite patronal e pela discriminação de seus companheiros de classe “não negros”, “não escravos”. Não foi diferente no nosso processo de colonização e na contínua ofensiva de cooptação e dominação das Américas Central Insular e Latina. Fascismo, racismo, misoginia, machismo, lgbtqiapn+fobia, capacitismo, xenofobia, etarismo são condutas de violência, de segregação e de produção de sofrimento ético-político que estruturam nossa sociedade, diretamente relacionadas ao pacto cultural que se concretiza no cotidiano por políticas identitárias. Neste caminho, é em desobediência sistêmica que buscamos viabilizar e visibilizar conhecimentos que possam romper com as práticas discursivas colonialistas e imperialistas.
Tratar “a questão da branquitude como sinônimo de opressão e dominação e não (...) de identidade racial” (Bento, 2022, p. 59) nos oferece, junto à perspectiva interseccional - com destaque para a masculinidade e o nacionalismo - razões para trazer identidades e culturas como eixos de debates de interesse crítico-emancipatório. Consideramos comunicações que partam de questões raciais, identidades e orientações de gênero, classe, território, idade, deficiências, deslocamentos migratórios e sistemas de crenças que identifiquem marcas da colonialidade do saber, do fazer e do poder no cotidiano e nas produções científicas, nas atuações profissionais e nas instituições, a fim de precipitar rupturas na estrutura e status quo.
Deste modo, este eixo se destina a discussões subsidiadas por epistemologias insurgentes, decoloniais e contracoloniais, que contemplem as interseccionalidades e suas implicações em diferentes contextos sociais, científicos, territoriais e políticos. Esperamos proporcionar reflexões críticas e trocas com potencial de elaborar práxis coletivas e emancipatórias frente às estruturas coloniais, aos conluios imperialistas, fascistas, patriarcais e supremacistas.